O que é Yoga?
Yoga é tanto o estado de consciência de união entre o indivíduo e o Absoluto como o caminho para se chegar lá, o conjunto de disciplinas que realizamos para alcançar essa experiência mística de Unidade. É também um dos seis darshanas, sistemas filosóficos do Hinduísmo.
Existem diversos tipos de Yoga, conforme as características do praticante: Raja Yoga, Jñana Yoga, Karma Yoga, Bhakti Yoga, Hatha Yoga e Tantra Yoga.
RAJA YOGA - Sistema codificado pelo sábio Patanjali, consiste de 8 passos: Yamas (harmonização do homem com a sociedade), Niyamas (harmonização interna do homem com ele mesmo), Asanas (exercícios físicos), Pranayama (exercícios respiratórios), Pratyahara (abstração e interiorização dos sentidos), Dharana (concentração da mente), Dhyana (meditação) e Samadhi (estado em que se destruiu a ignorância de nossa verdadeira natureza).
JÑANA YOGA, o Yoga do Conhecimento - Caminho que busca atingir a união pelo constante discernimento entre o real e o irreal, ou seja, através do estudo, do questionamento e da contemplação percebemos a presença de Deus em nós.
KARMA YOGA, o Yoga da Ação Desinteressada - Partindo de nossas ações, ou seja, quando oferecemos os frutos de nossas ações a Deus, quando conseguimos agir de maneira totalmente desinteressada atingimos a união pelo servir.
BHAKTI YOGA, o Yoga da Devoção - Caminho que trabalha nossa afetividade, buscando a união com Deus através do amor, da devoção e da renúncia, consistindo de práticas como o canto, a adoração e outros rituais.
HATHA YOGA, o Yoga das Disciplinas Físicas - É o mais conhecido dos Yogas, começando o trabalho pelo corpo físico, através dos asanas (posturas) e pranayamas (exercícios respiratórios).
TANTRA YOGA, o Yoga das Energias Sutis - Segundo os textos clássicos, é o caminho indicado para os tempos atuais, abrangendo diversos aspectos dos demais ramos, utilizando-os de modo a atingir o equilíbrio de nossos chakras.
A base de tudo é a Shruti, a tradição oral. A literatura Shruti é constituída pelos Vedas, o Conhecimento revelado no início da Criação aos primeiros mestres pelo próprio Criador na forma do primeiro mestre, Dakshinamurti, e transmitido oralmente de mestre a discípulo. Não foram portanto criados pelo ser humano.
São constituídos por: Rig Veda, Yajur Veda, Sama Veda e Atharva Veda. Rig Veda é o mais antigo, composto de hinos, rituais e oferendas às divindades; Yajur Veda contém as fórmulas para fazer os rituais do Rig Veda; Sama Veda contém melodias e cânticos e Atharva Veda é composto de fórmulas para rituais em geral.
Cada um dos Vedas é dividido em Samhitá, Brahmana, Aranyaka e Upanishad. Samhitá são coleções de mantras; Brahmana são explicações das palavras e dos textos; Aranyaka são textos para os renunciantes e Upanishad são textos que tratam do Absoluto, Brahman, constituindo a parte final dos Vedas.
Para melhor compreensão dos textos védicos, surgiram manuais auxiliares, os vedangas e os upavedas. Os vedangas são compostos por Gramática, Etimologia, Fonética, Métrica, regras para aplicação dos rituais e Astronomia. Os upavedas são compostos por Ayurveda, a Ciência da Vida, ou seja, a Medicina, a Ciência do manejo do arco, Ciência da música e Arquitetura.
Mais tarde surgiu a literatura Smrti, aquilo que é lembrado. Seu objetivo é preservar o ensinamento védico. É composto de: Shastras, Puranas, Itihasas, Agamas e Darshanas. Shastras são textos sobre leis, política, ética, vida em sociedade, etc. Puranas contém todo o material sobre mitologia hindu; Itihasas são os dois grandes épicos, o Ramayana e o Mahabharata; Agamas são textos que comentam um aspecto do Criador e Darshanas, que são os pontos de vista da realidade, os sistemas filosóficos. Dividem-se em Ástika (baseiam-se nos Vedas) e Nástika (não se baseiam nos Vedas). O sistema Ástika possui seis escolas (Nyaya, Vaisheshika, Samkhya, Yoga, Karma-Mimansa e Vedanta) e o Nástika possui três escolas (Charvaka, Jaina e Baudha).
NYAYA - O texto básico deste sistema é Nyaya Sutra, de Gautama Maharshi. É considerado o caminho da lógica. Segundo este sistema, é possível pelo argumento lógico alcançar o Absoluto. Estabelece a distinção entre o que é correto e o que é falso e define os meios lógicos de análise da realidade. O objetivo da vida é a liberação do sofrimento.
VAISHESHIKA - Vaisheshika vem da palavra vishesha, que significa diferença, característica ou qualidade. Este sistema analisa as características ou a natureza manifesta das coisas individuais. Seu fundador foi Kanada, autor do texto básico, Vaisheshika Sutra. Eles chegaram à menor divisão possível do mundo real, os átomos. Segundo eles, o universo visível é causado pela união dos átomos, sendo que na dissolução não há combinação entre eles. Maheshvara é o criador de tudo. A partir de um desejo seu, o mundo tem origem, permanência e fim. O objetivo da vida é a liberação do sofrimento através do conhecimento correto da realidade.
SAMKHYA - Texto básico: Samkhya Pravachana Sutra, de Kapila. O ponto de partida é a insatisfação humana diante do sofrimento, que é causado pela ignorância (ajñana) ou pela falta de discernimento (aviveka). Samkhya analisa esta insatisfação humana e enfatiza a necessidade de se conhecer o que é este mundo manifestado e o não-manifestado. Da constatação da constante transformação do mundo manifestado surge a Teoria da Causação, que diz que o efeito já existe em estado latente em sua causa. Samkhya postula o karma e a transmigração do nosso corpo sutil, sukshma sharira. O objetivo da vida é moksha, a liberação da ignorância de nossa verdadeira natureza.
YOGA - Texto básico: Yoga Sutra, de Patanjali. Para que possamos conhecer nossa verdadeira natureza, é necessária uma disciplina prática, que tenha como meta o controle da mente. Yoga é a cessação das oscilações mentais, que são causadas pelos kleshas, as fontes de aflição: avidya (ignorância de nossa verdadeira natureza), asmitá (egoísmo), raga (gosto, atração), dvesha (aversões) e abhinivesha (medo de morrer), que podem ser destruídas através de abhyasa (estudo, exercício, prática) e vairagya (desapego). É proposto então o Ashtanga Yoga, caminho prático de 8 passos: Yamas (harmonização do homem com a sociedade), Niyamas (harmonização interna do homem com ele mesmo), Asanas (exercícios físicos), Pranayama (exercícios respiratórios), Pratyahara (abstração e interiorização dos sentidos), Dharana (concentração da mente), Dhyana (meditação) e Samadhi (estado em que se destruiu a ignorância de nossa verdadeira natureza).
KARMA MIMANSA - Este sistema analisa as ações prescritas nos Vedas, fornecendo a metodologia de interpretação dos rituais védicos e sua justificativa filosófica. Seu texto básico é Mimansa Sutra, de Jaimini. Segundo eles, o mundo é regulado pela ação. A ação correta leva ao conhecimento. A finalidade da vida, portanto, é a pesquisa da ação correta, Dharma, ordenada pelos Vedas. Dharma, no nível microcósmico, é o código de conduta que sustenta a evolução pessoal. Esse código é composto de práticas rituais, deveres e ações que visam colocar o indivíduo em sintonia com o Dharma Universal, ou seja, as Leis da Natureza. No nível macrocósmico faz referência às Leis da Natureza que mantém o Universo.
VEDANTA - Vedanta analisa o campo transcendental, o Absoluto. É constituída pelos ensinamentos das Upanishads, a última parte dos Vedas. Seu texto básico é Vedanta Sutra, de Vyasa. Possui comentários importantes de três mestres: Shankara, Ramanuja e Madhava. Vedanta se dirige àqueles que possuem mumukshutvam, que anseiam e buscam a liberação da ignorância de sua verdadeira natureza. O objetivo da vida é moksha, a liberação.
CHARVAKA - São materialistas, negam Deus, alma e tudo aquilo que não seja matéria. Tudo o que existe é uma combinação dos quatro elementos (terra, água, fogo e ar). O objetivo da vida consiste em artha, busca de bens materiais e segurança, e kama, busca de prazer.
JAINA - Este sistema segue o ensinamento de Mahavira. O mundo é um conjunto de substâncias reais. Tudo tem origem, permanência e fim. Admitem a existência da alma, jiva, que é eterna e cuja essência é a consciência. Jiva permeia o corpo como uma luz, sujeitando-se ao fluxo de karma, devido à ignorância de si mesma. O objetivo da vida é moksha, a liberação da ignorância de nossa verdadeira natureza.
BAUDHAS (Sistema Budista) - Ensinamento trazido por Sidharta Gautama, o Buddha Sakyamuni. Buddha significa aquele que é desperto, iluminado e sábio. Baseia-se no conhecimento das Quatro Nobres Verdades: a existência do sofrimento, a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho para a cessação do sofrimento, o caminho óctuplo: visão correta, decisão correta, discurso correto, ação correta, meio de vida correto, esforço correto, atenção correta e meditação. O objetivo da vida é o nirvana, a destruição do sofrimento.
(Baseado em obra não publicada sobre Hinduísmo, de Annabella Magalhães)
Conceitos
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Brahman – Atman
Brahman, o Absoluto, a verdadeira natureza da criação, presença eterna, origem e substância de tudo, quando permeia o corpo físico individual, é chamado Atman, Eu. Atman é Brahman.
Por Ele estar em um corpo, a ignorância (avidya) produz a noção do eu limitado com as características e qualidades do corpo e o sentimento de ser o agente da ação.
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Maya
Maya é aquela que produz ilusões que não existem. Como véu, encobre a apreciação de nossa verdadeira natureza divina, Brahman. Em relação ao Absoluto, toda a criação é ilusória. Individualmente ela é avidya, a ignorância que produz o sentimento de limitação, a identificação com o corpo.
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Karma
Karma significa ação. Ao invés de encarar o mundo objetivamente e compreender que ao homem cabe a ação, mas os resultados, os frutos da ação, são do Criador, devido a ignorância de sua verdadeira natureza e conseqüentemente a não apreciação da harmonia da Criação e suas leis, o homem age influenciado por seus gostos e aversões, preso aos resultados de suas ações, ficando assim envolvido no ciclo de nascimentos e mortes (samsara).
Existem três tipos de karma: Agami Karma, Sanchita Karma e Prarabdha Karma. Agami Karma são os resultados das ações atuais e futuras. Corresponde às sementes que serão plantadas. Sanchita Karma são todas as ações feitas em vidas passadas, acumuladas em estado potencial e que ainda não germinaram. Prarabdha Karma são as situações que estamos vivendo neste momento, as sementes já germinadas, as ações que já produziram suas conseqüências, é o destino que não podemos modificar e sim aceitar. O Agami Karma e o Sanchita Karma são queimados pela aquisição do Conhecimento de minha verdadeira natureza. Já o Prarabdha Karma não pode ser queimado.
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Dharma
Dharma é aquilo que deve ser feito em conformidade com as leis da natureza que mantém a Criação. O que é esperado de alguém fazer.
O Dharma é uma ordem, um comando até que seja compreendido, pois a apreciação de qual é o meu papel nasce de uma maturidade. Quando o homem tem uma maturidade, quando sua mente torna-se clara, ele vê a harmonia da Criação e se vê idêntico ao Criador, aí então o dever torna-se uma ação natural.
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Moksha
Moksha significa liberação, a liberação da morte, da infelicidade, da ignorância de quem sou Eu.
É dito nas Upanishads: "Podemos ir para fora de nós mesmos e gastar muita energia na busca da realização, mas nossa jornada estará sendo feita na ignorância e não nos trará mais perto do nosso objetivo, porque moksha já é nossa verdadeira natureza."
Moksha já é um fato. É necessário somente uma mente preparada, que deseje escutar, refletir e meditar sobre o Conhecimento. A liberação é a meta de todos os seres.
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Samsara
Samsara é o ciclo de vida, morte e renascimento. É a prisão daquele que está ligado aos seus gostos e aversões, agindo apegado aos frutos de suas ações, ignorante de sua verdadeira natureza. Este homem viverá acumulando karmas e necessitará nascer muitas vezes até alcançar a maturidade que o orientará no sentido da liberação e o livrará do ciclo de nascimentos e mortes. Eliminar o samsara é descobrir nossa verdadeira natureza divina, Brahman.